O apartamento no terceiro andar
O Violino de Infância de Mozart e os Quartos Onde Nasceu
Os Mozart viveram na Getreidegasse 9 de 1747 a 1773, e a casa ainda guarda instrumentos que Wolfgang realmente tocou. O que está realmente a ver, andar a andar.
Veja o passeio guiado por Salzburgo ↗Um endereço real, não um santuário
A força da Getreidegasse 9 é que nada ali é simbólico. Wolfgang Amadeus Mozart nasceu aqui a 27 de janeiro de 1756, no terceiro andar do que era então a Hagenauer Haus, assim chamada pela família de comerciantes que a possuía e que arrendou o apartamento aos Mozart de 1747 até 1773. O seu pai, Leopold, era músico da corte e professor celebrado; a sua irmã mais velha, Maria Anna — Nannerl — era uma prodígio do teclado por direito próprio; e o lar que o visitante percorre era um empreendimento musical ativo muito antes de Wolfgang o tornar imortal. A casa está aberta ao público como museu desde 1880 e é hoje gerida pela Fundação Internacional Mozarteum, que mantém a tónica firmemente em objetos autênticos, em vez de recriações de parque temático.
Instrumentos que foram realmente seus
As peças principais do museu são instrumentos com uma ligação direta e documentada ao próprio Mozart: o seu violino de infância, o seu violino de concerto, o chamado violino Costa, a sua viola, o seu fortepiano e o seu clavicórdio. É isto que distingue a Casa Natal de qualquer outra atração temática de Mozart — não são instrumentos de época "do tipo que ele teria tocado", mas os objetos físicos nos quais um par específico de mãos pequenas aprendeu, praticou e compôs. A exposição acompanha cada instrumento com exemplos áudio de obras de Mozart executadas nesse instrumento original, para que possa ouvir exatamente como o clavicórdio soa ténue, íntimo e humano em comparação com o Mozart de sala de concerto que a maioria de nós guarda na memória.
O clavicórdio e o certificado de Constanze
O objeto mais silenciosamente comovente da casa é o clavicórdio, que traz um certificado escrito pela mão de Constanze Mozart, a sua viúva, a atestar a sua história — a tradição liga-o à composição de A Flauta Mágica no último ano da sua vida. Um clavicórdio é um instrumento privado, pouco mais alto que a fala, feito para estudo e composição em vez de performance, e estar diante deste colapsa a distância entre o mito e o músico profissional. A nota de Constanze é também um lembrete de que a lenda de Mozart foi curada desde o início pelas pessoas que o amavam — ela passou décadas a gerir os seus manuscritos, a sua biografia e as suas relíquias, e este certificado é essa tutela tornada visível.
Cartas, retratos e o rasto documental
Em torno dos instrumentos, o museu constrói a sua narrativa a partir de certificados originais, cartas e memorabilia, juntamente com retratos pintados durante a vida de Mozart — um pormenor crucial, uma vez que a maioria dos rostos de Mozart nas caixas de chocolate deriva de imagens póstumas e idealizadas. As cartas são as vozes da própria família: a correspondência meticulosa, ambiciosa e por vezes extenuante de Leopold, e os registos familiares das digressões que levaram os filhos pela Europa fora. Ler, ainda que um fragmento traduzido, junto aos aposentos onde essas cartas foram escritas e recebidas faz algo que nenhuma biografia consegue: redimensiona Mozart de génio de mármore a criança num andar alugado, cujo pai era simultaneamente o seu professor, empresário e publicitário.
Passear por uma casa do século XVIII
A exposição distribui-se por três pisos e inclui tanto salas originais como um apartamento de classe média reconstruído com o máximo de autenticidade, mostrando como vivia na realidade uma família da condição dos Mozart — como cozinhavam, dormiam, trabalhavam e recebiam em poucos cômodos. O percurso curatorial acompanha a sua educação, o seu desenvolvimento musical, as suas relações com a família e os mecenas, e a sua paixão vitalícia pela ópera. Vale a pena resistir à tentação de correr para os objetos famosos: os espaços domésticos reconstruídos são o contexto que dá sentido ao violino e ao clavicórdio, pois revelam o mundo modesto, apinhado e quotidiano de onde, de forma improvável, emergiu aquela música.
O piso que muda todos os anos
Um dos pisos da casa acolhe exposições temporárias anuais, o que significa que quem volta — e Salzburgo recebe muitos visitantes repetentes — raramente vê exatamente o mesmo museu duas vezes. Estas mostras temáticas aprofundam aspetos específicos do universo de Mozart com mais detalhe do que as exposições permanentes conseguem, e são também onde o braço de investigação da Fundação se revela ao público: o Mozarteum detém uma das maiores coleções académicas mozartianas do mundo, e as exposições baseiam-se nela. Em conjunto com a instalação 'Flying Notes' na fachada, o efeito é o de um museu que trata Mozart como um objeto vivo de estudo, e não como uma relíquia selada — o que, apropriadamente, é exatamente como a própria cidade o trata.
Porque uma hora aqui tem outro impacto
A Fundação sugere cerca de uma hora para a visita, e isso é honesto — trata-se de um museu-casa denso mas compacto, não um complexo para meio-dia. O que se compra com essa hora é a proximidade: o chão original, os instrumentos originais, o papel original. Combina naturalmente com o resto da Salzburgo de Mozart — a Residência do outro lado do rio para os anos posteriores da família, as ruas e praças da Cidade Velha onde ele cresceu a atuar, e um concerto noturno para ouvir a música na cidade que a moldou. Se só tiver tempo para um local mozartiano na Áustria, este é o que tem a mais forte reivindicação à palavra 'berço' em todos os sentidos.